Maria Marly de Oliveira: uma trajetória dedicada à formação, ao diálogo e à inovação na pesquisa educacional
Da sala de aula em Juazeiro do Norte às referências em pesquisa qualitativa, a trajetória da professora Dra. Maria Marly de Oliveira é permeada pela dedicação à formação humana, à inovação metodológica e à defesa de que a educação é um processo de transformação construído por meio do diálogo.
Destaques da trajetória
- 60 anos dedicados à Educação
- 14 livros publicados
- Mais de 200 pesquisas utilizando suas metodologias
- 8ª edição do livro Como Fazer Pesquisa Qualitativa
- Conferencista internacional
Há mais de seis décadas, Maria Marly de Oliveira iniciou uma caminhada que a levaria a se tornar uma das principais referências brasileiras em pesquisa qualitativa. O percurso começou em 1963, quando, aos 16 anos, passou a atuar em uma instituição dirigida por padres salesianos, em Juazeiro do Norte, no Ceará. Na época, auxiliava estudantes nas atividades escolares e já demonstrava a vocação que marcaria toda a sua vida profissional.
“Costumo dizer aos meus alunos que nasci para ser professora. Sou educadora de carteirinha. Toda a minha formação foi construída na área da Educação, pois cursei graduação em Pedagogia, especialização em Ensino Superior, mestrado e doutorado em Educação, sendo este último realizado no Canadá. Ao longo dessa caminhada, eu nunca deixei de ensinar. Atuei desde a educação infantil, passando pelo ensino fundamental, médio, superior, pós-graduação, e hoje também oriento pesquisas em nível de pós-doutorado.”
Além da Pedagogia, a professora Marly também possui formação em Filosofia, fator que contribuiu para uma compreensão mais ampla dos processos educacionais. Para ela, as duas áreas se complementam. “A Filosofia, sendo a ‘ciência do amor à sabedoria’, faz análise crítica para a compreensão da realidade e o desenvolvimento do conhecimento. A Pedagogia, sendo a ciência que estuda a educação, trata do processo de ensino-aprendizagem, usando métodos e técnicas para produzir e transmitir conhecimentos. Em síntese, a Pedagogia necessita da Filosofia para compreensão da realidade e do conhecimento, tanto como transmissão do que já foi produzido e de novas produções”, explica.
Essa articulação entre reflexão e prática se tornou ainda mais profunda a partir de uma experiência que, segundo Maria Marly, mudou a sua vida: ter sido aluna de Paulo Freire.
Paulo Freire e a descoberta de uma nova prática docente
Em 1985, durante o mestrado em Educação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Maria Marly matriculou-se, por curiosidade, na disciplina Educação Crítica, ministrada por Paulo Freire. Até então, ela conhecia apenas a fama do educador, sobre quem “já tinha escutado falar muito bem”. A forma que Freire conduziu a dinâmica do primeiro dia de aula ultrapassou a expectativa.
“Eu comecei a me encantar por Freire já no primeiro dia de aula, pela simplicidade e a maneira carinhosa como tratava os mestrandos. Ele entrou na sala sem livros, sem cadernos, sentou-se conosco e iniciou uma conversa. Pediu que cada aluno falasse, por alguns minutos, sobre sua experiência na educação e, aos poucos, fomos nos desarmando. Depois, pediu que organizássemos as cadeiras em roda, porque queria ver todos, e isso foi muito importante, porque a gente se comunicava pelo olhar, com os colegas e com ele. Foi muito marcante”, relata.
Para a então professora universitária, formada em uma tradição educacional mais conservadora, a experiência representou uma ruptura. “Foi uma mudança da água para o vinho”, relembra. A partir daquele momento, sua prática docente passou a ser movida pela participação ativa dos estudantes e pela construção coletiva do conhecimento. O diálogo se tornou um princípio orientador da sua atuação profissional.
“A gente se comunicava pelo olhar, com os colegas e com ele. Foi muito marcante.”
Décadas depois, Maria Marly de Oliveira continua identificando nessa experiência uma das maiores influências de sua trajetória profissional. Entre os inúmeros ensinamentos de Paulo Freire, há um que mais toca e impulsiona a sua prática docente: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”.
Para Maria Marly, a pedagogia freireana não deve existir apenas nos discursos acadêmicos, mas, principalmente, nas práticas cotidianas. “Não basta você dizer que é freireana, os alunos é que precisam perceber que você vive a pedagogia de Freire”, afirma.
Do diálogo à metodologia
O legado freireano também está presente em uma das contribuições mais significativas da professora para a pesquisa educacional: a criação da Metodologia Interativa. A proposta surgiu durante o período em que cursava doutorado em Educação na Universidade de Sherbrooke, localizada em Quebec, no Canadá, quando desenvolvia em sua tese a análise sobre um projeto bilateral Brasil-Canadá.
Ao perceber que os referenciais metodológicos inicialmente sugeridos não dialogavam com a perspectiva freireana que fundamentava sua pesquisa, Maria Marly iniciou uma busca por caminhos alternativos. Nesse percurso, encontrou na Hermenêutica Filosófica de Hans-Georg Gadamer e na Teoria da Complexidade de Edgar Morin interlocuções capazes de dialogar com a obra de Paulo Freire.
“Ao começar a estruturar minha coleta de dados, fui aos poucos buscando os aportes teóricos, e assim comecei a descobrir que Freire podia dialogar com a Hermenêutica Filosófica de Gadamer e com o Paradigma da Complexidade de Edgar Morin. Assim procedendo, criei a Metodologia Interativa, tendo como carro-chefe o Círculo Hermenêutico Dialético (CHD), com os aportes teóricos da Hermenêutica, Dialogicidade e Complexidade”, explica a professora.
Posteriormente, a pesquisadora desenvolveu a Sequência Didática Interativa (SDI) como um desdobramento da Metodologia Interativa, que surgiu como uma técnica para melhorar o processo ensino-aprendizagem na Educação Básica. “Dada as experiências exitosas com a SDI, esta técnica também passou a ser utilizada como metodologia para coleta de dados em pesquisas qualitativas”, complementa.
Atualmente, tanto a Metodologia Interativa quanto a SDI são empregadas em diferentes níveis de ensino e vêm sendo utilizadas em pesquisas desenvolvidas, inclusive no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação de Ciências na Amazônia (PPGEECA) da Universidade do Estado do Pará (Uepa), contribuindo para a produção de conhecimentos atrelados às realidades amazônicas.
Em maio de 2026, Maria Marly de Oliveira participou de duas bancas de qualificação de pesquisas de alunas do PPGEECA, que utilizaram na metodologia de suas dissertações a Sequência Didática Interativa. “Tive uma imensa satisfação ao participar dessas duas bancas de pesquisas, porque ambas apresentam diferencial. Uma delas está sendo desenvolvida em comunidades ribeirinhas da Amazônia e resultará na produção de um manual em formato de histórias em quadrinhos. A outra, também realizada em contexto ribeirinho, envolve a aplicação da metodologia em seis comunidades rurais e terá como produto a elaboração de um manual dialógico baseado na minha metodologia. Fiquei muito feliz com a produção dos trabalhos”, ressalta.
De 11 a 13 de novembro, a professora Marly participará do IV Encontro de Pesquisa em Educação e Ensino de Ciências na Amazônia (EPEECA), que será realizado no Centro de Ciências Sociais e Educação (CCSE) da Uepa e no Centro de Ciências e Planetário do Pará (CCPPA). A docente participará da Mesa de Diálogo “Ciências da Natureza em Perspectiva: Diálogos entre Amazônia, Norte, Nordeste, Sul e Sudeste” e conduzirá a oficina “Dialogicidade Freireana e Sequência Didática Interativa no Ensino de Ciências da Natureza Buscando o Inédito Viável”.
Legado acadêmico
Ao longo de sua carreira, Maria Marly de Oliveira consolidou uma expressiva produção bibliográfica. São 14 livros publicados, entre obras impressas e digitais, incluindo títulos que se tornaram referência para pesquisadores da área educacional. Entre eles, destaca-se Como Fazer Pesquisa Qualitativa, obra que alcança sua oitava edição, pela Editora Vozes, e abarca as duas metodologias de pesquisa desenvolvidas pela docente.
“Já construí 14 livros e a criação da série Formação de Professores, projeto aprovado pelo CNPq/UFRPE. Como coordenadora do seguimento pesquisa, da Cátedra Paulo Freire da UFRPE, coordeno e produzo livros e e-books com colegas e estudantes da pós-graduação”, complementa.
Além disso, levantamentos realizados identificaram mais de 200 trabalhos acadêmicos desenvolvidos a partir da Metodologia Interativa e da Sequência Didática Interativa. Em 2021, a professora foi convidada para proferir a conferência de abertura do 10º Congresso Ibero-Americano em Investigação Qualitativa, realizado pela Universidade de Aveiro, em Portugal. Em 2025, participou da Aula Magna de abertura do ano letivo do PPGEECA.
Mesmo após seis décadas de atuação acadêmica, Maria Marly continua orientando pesquisas, ministrando disciplinas, participando de bancas e produzindo conhecimento. Quando aconselha jovens pesquisadores e futuros educadores, retorna aos princípios que marcaram a sua trajetória: diálogo, curiosidade intelectual, escuta sensível, compromisso ético e leitura constante.
“Recomendo priorizar o diálogo, ler bastante, pois conhecimento liberta; saber escutar, ter curiosidade para buscar respostas com base nos conhecimentos já produzidos, como, por exemplo, ler obras do educador Paulo Freire e diversos teóricos que trabalham a Filosofia, com destaque para Marilena Chauí e, na área da Educação, os autores: Imbernón, Nóvoa, Selma Garrido e tantos outros. Finalmente ter consciência de si mesmo, da realidade onde vivemos e valorizar os pesquisadores e a evolução das tecnologias. Em resumo, parafraseando o educador Paulo Freire: A maior motivação para ser professora e pesquisadora é a combinação de amor pelas pessoas, alegria de aprender e ensinar, esperança na transformação do mundo e a consciência de que você está cumprindo sua vocação mais profunda como ser humano”, conclui.