FORMAÇÃO INTEGRAL DO APRENDIZ-PROFESSOR: AS CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA SUBJETIVIDADE NA LICENCIATURA INTEGRADA EM CIÊNCIAS, MATEMÁTICA E LINGUAGENS
Resumo
Este artigo aborda os desafios da formação inicial de professores no Brasil e possuímos as questões norteadoras: Qual a perspectiva de formação integral existente no Projeto Político Pedagógico da Licenciatura Integrada LICML? e de que forma a Teoria da Subjetividade contribui para a formação do aprendiz-professor na Licenciatura Integrada? Assim, objetivamos discutir a Licenciatura Integrada, apresentando a perspectiva de formação integral apontada no currículo do curso e a visão de formação integral na perspectiva da teoria da Subjetividade de González Rey, trazendo à luz teórica as contribuições dessa abordagem para formação inicial de professores. Esta pesquisa é qualitativa em específico uma reflexão teórica em que nos fundamentamos nos conceitos da TS para tecer uma reflexão crítica sobre a perspectiva de formação integral presente no PPC da licenciatura Integrada. Nosso texto está estruturado em três tópicos de discussão sendo eles, Formação integral: do que se trata? O PPC do curso e a visão de formação integral e A Formação integral na perspectiva da Teoria da Subjetividade. Como resultados percebemos que no PPC do curso existe a relação de integração entre teoria e prática, a integração entre os conteúdos de forma interdisciplinar e fomento a temáticas socioculturais, porém, não é dado valor a formação integral do sujeito que aprende deixando de lado a dimensão subjetiva da aprendizagem. Concluímos que, para melhorar a qualidade da formação inicial docente no Brasil, se torna fundamental abordagens que se considerem a complexidade do sujeito e valorizem a história de vida, as relações e o contexto da sala de aula.
Palavras-chave: Formação inicial. Teoria da subjetividade. Projeto Político Pedagógico. Licenciatura integrada.
Integral Formation of the Learner-Teacher: Contributions of the Theory of Subjectivity in the Integrated Degree in Science, Mathematics, and Languages
Abstract
This article addresses the challenges of initial teacher training in Brazil and is guided by the following questions: What is the perspective of comprehensive education present in the Political Pedagogical Project of the Integrated Teacher Training Degree (LICML)? and how does the Theory of Subjectivity contribute to the training of the learner-teacher in the Integrated Teacher Training Degree? Thus, we aim to discuss the Integrated Teacher Training Degree, presenting the perspective of comprehensive education indicated in the course curriculum and the vision of comprehensive education from the perspective of González Rey's Theory of Subjectivity, bringing to light the theoretical contributions of this approach to initial teacher training. This research is qualitative, specifically a theoretical reflection in which we base ourselves on the concepts of the Theory of Subjectivity to develop a critical reflection on the perspective of comprehensive education present in the PPC of the Integrated Teacher Training Degree. Our text is structured in three discussion topics: Comprehensive Education: what is it about? The PPC of the course and the vision of comprehensive education and Comprehensive Education from the perspective of the Theory of Subjectivity. As a result, we observed that the course's curriculum integrates theory and practice, integrates content in an interdisciplinary way, and promotes sociocultural themes. However, it does not value the holistic development of the learner, neglecting the subjective dimension of learning. We conclude that, to improve the quality of initial teacher training in Brazil, it is essential to consider approaches that take into account the complexity of the individual and value their life history, relationships, and classroom context.
Keywords: Initial training. Theory of subjectivity. Political Pedagogical Project. Integrated Bachelor's Degree.
Formación Integral del Aprendiz-Profesor: Contribuciones de la Teoría de la Subjetividad en la Licenciatura Integrada en Ciencias, Matemáticas y Lenguajes
Resumen
Este artículo aborda los desafíos de la formación inicial del profesorado en Brasil y se guía por las siguientes preguntas: ¿Cuál es la perspectiva de la educación integral presente en el Proyecto Político Pedagógico de la Licenciatura Integrada (LICML)? y ¿cómo contribuye la Teoría de la Subjetividad a la formación del estudiante-profesor en la Licenciatura Integrada? Así, nuestro objetivo es analizar la Licenciatura Integrada, presentando la perspectiva de la educación integral indicada en el plan de estudios y la visión de la educación integral desde la perspectiva de la Teoría de la Subjetividad de González Rey, poniendo de relieve las contribuições teóricas de este enfoque a la formación inicial del profesorado. Esta investigación es cualitativa, específicamente una reflexión teórica en la que nos basamos en los conceptos de la Teoría de la Subjetividad para desarrollar una reflexión crítica sobre la perspectiva de la educación integral presente en el PPC de la Licenciatura Integrada. Nuestro texto se estructura en tres temas de discusión: Educación Integral: ¿de qué se trata? El PPC del curso y la visión de la educación integral y Educación Integral desde la perspectiva de la Teoría de la Subjetividad. En consecuencia, observamos que el Proyecto Pedagógico (PPC) del curso integra teoría y práctica, adopta un enfoque interdisciplinario del contenido y promueve temas socioculturales. Sin embargo, no valora el desarrollo holístico del estudiante, descuidando la dimensión subjetiva del aprendizaje. Concluimos que, para mejorar la calidad de la formación inicial docente en Brasil, es fundamental adoptar enfoques que consideren la complejidad del individuo y valoren su historia de vida, sus relaciones y su contexto en el aula.
Palabras chave: Formación inicial. Teoría de la subjetividad. Proyecto Pedagógico Político. Grado integrado.
Introdução
Inúmeros trabalhos acadêmicos abordam os desafios enfrentados na formação inicial de professores no Brasil, principalmente envolvendo o currículo fragmentado (André, 2002; Saviani, 2007; Diniz-Pereira, 2007; Ayres, 2012; Gatti 2014; Santos e Souza, 2019; Ribeiro e Viveiro, 2018; entre outros). Esses estudos alinham-se com a compreensão de que a formação inicial de professores no ensino superior ainda não apresenta um currículo adequado às demandas do ensino e os cursos de licenciatura dedicam apenas uma pequena parte de seu currículo às práticas pedagógicas, ao âmbito escolar, à didática e à aprendizagem. Algumas medidas discutidas apontam para a necessidade de equilibrar uma base teórica sólida com práticas pedagógicas adequadas, permitindo uma maior articulação entre teoria e prática, aprimoramento das disciplinas práticas e integração do estágio com os conteúdos curriculares, a fim de melhorar a qualidade da educação básica.
Mediante a necessidade de uma abordagem interdisciplinar de questões abrangentes e fundamentais de conhecimento científico e social, surge então o processo de implantação de um novo curso ofertado pelo Instituto de Educação Matemática e Científica (IEMCI): A Licenciatura Integrada em Educação em Ciências, Matemáticas e Linguagens (LIECML). O currículo da Licenciatura Integrada (LIECML) foi projetado para considerar “componentes curriculares de natureza diversificada” de modo a superar o enfoque acadêmico tradicional dos cursos de formação de professores que se “reduzem à mera transmissão de conhecimento e informações” (PPC, 2012), se opondo à concepção de currículo fragmentado, buscando uma articulação entre a teoria e prática e aproximação das vivências da licenciatura com a realidade docente.
Os componentes de natureza diversificada conforme o encontrado no PPC do curso “permitem o estabelecimento contínuo e progressivo de relações cognitivas diferenciadas”, pois são programadas ao nível da prática e atividades em situações reais, que são articuladas com outros assuntos, temas, eixos temáticos e “requerem a integração de diferentes áreas do conhecimento” o que aponta para um planejamento do curso que visa a formação integral do licenciando matriculado, que surge com o conceito de competência como elemento orientador, em que é necessário “conjuntos integrados e articulados de situações-meio”, pensados para promover a aprendizagem que o futuro professor precisa na sua carreira profissional.
O curso de licenciatura integrada, foi pensado a partir de uma nova visão diferenciada aos demais cursos praticados no Brasil, sendo voltado à formação de docentes para atuar nos anos iniciais de escolarização. Machado e Gonçalves (2016),
asseveram que a partir de uma matriz curricular específica e integrada é possível assegurar abordagens educativas pautadas em uma perspectiva interdisciplinar que proporcione uma sólida formação geral ao futuro professor. Contudo, apesar de observarmos uma grande importância nas pesquisas sobre formação de professores, a formação integrada é uma abordagem pedagógica e curricular que se concentra na organização do ensino e na integração de conteúdos, revelando que o foco da formação tem sido essencialmente o que ensinar, sem dar valor a integralidade do sujeito que aprende, ou seja, como os professores aprendem e se desenvolvem subjetivamente nesse processo (Mitjáns Martínez e González Rey, 2019).
Logo, este artigo se torna importante para fomentar discussões sobre a noção de integração presente na formação inicial e a perspectiva de formação integral de professores para teoria da subjetividade de González Rey. Acreditamos que esse trabalho possibilita reflexões sobre a produção do conhecimento científico apoiado na valorização do próprio sujeito que aprende, já que, “recuperar o sujeito que aprende implica integrar a subjetividade como aspecto importante desse processo, pois o sujeito aprende como sistema e não só como intelecto”. (González Rey, 2008, p. 33).
Desse modo, este artigo tem como questões norteadoras: Qual a perspectiva de integração existente no Projeto Político Pedagógico da Licenciatura Integrada em Ciências, Matemática e Linguagens (LICML)? e de que forma a Teoria da Subjetividade a partir da compreensão da perspectiva de formação integral para preparação para o exercício da profissão pode contribuir com reflexões no que diz respeito ao PPC do curso? Assim, objetivamos por meio deste artigo discutir a respeito da formação integral presente no PPC da licenciatura integrada e a formação integral na perspectiva da teoria da Subjetividade de González Rey. O presente texto está estruturado em três tópicos de discussão sendo eles Formação integral: do que se trata? O PPC do curso e a visão de formação integral e A Formação integral na perspectiva da Teoria da Subjetividade.
Metodologia
O presente artigo é uma pesquisa qualitativa, em específico uma reflexão teórica em que nos fundamentamos nos conceitos da Teoria da Subjetividade para tecer uma reflexão crítica sobre a perspectiva de formação integral presente no Projeto Pedagógico do Curso (PPC) de Licenciatura Integrada em Educação em Ciências, Matemática e Linguagens. Para levantamento de materiais para tal análise e reflexão selecionamos artigos científicos pertinentes ao tema publicados em periódicos acadêmicos reconhecidos, livros, além de recorrer ao PPC do curso. Vale ressaltar que os materiais revisados foram escolhidos com base em sua relevância teórica e metodológica, contemplando estudos que abordassem os conceitos centrais da Teoria da Subjetividade e suas implicações para a formação integral.
Assim, a reflexão desenvolvida neste artigo ocorreu por meio de um processo de leitura e interpretação crítica dos textos selecionados, as informações foram organizadas e articuladas de modo a evidenciar os pontos de convergência e tensão entre os conceitos teóricos e a proposta pedagógica presente no PPC. Desse modo, foi possível construir uma análise que problematiza a perspectiva de formação integral para a Teoria da Subjetividade de González Rey em comparação com o pretendido no currículo da Licenciatura Integrada. Por fim, os resultados desta reflexão teórica foram estruturados com base nos princípios da análise qualitativa, buscando não apenas descrever os
achados, mas também interpretá-los à luz dos referenciais teóricos utilizados e esse processo permitiu uma compreensão mais aprofundada e crítica do tema investigado.
Resultados e discussão
Formação integral: do que se trata?
Diante dos diferentes discursos sobre formação de professores, currículo e reformas educacionais, Ramos (2012) destaca que houve a necessidade de formação de habilidades e competências que tornem as pessoas capazes de trabalhar de forma mais integrada, ou seja, “capazes de solucionar problemas em situações contingentes e serem criativas para assimilar mudanças rápidas” e de dialogar com outras áreas do conhecimento. Essa necessidade surge em detrimento do que Diniz-Pereira (2014; 2016) destaca, que nos cursos de formação inicial existe a prevalência de uma abordagem que prioriza o conhecimento do conteúdo em detrimento da formação pedagógica, dá maior ênfase ao conteúdo científico e deixa em segundo plano a reflexão sobre práticas de ensino adequadas, bem como o vínculo entre disciplinas de conteúdo e disciplinas pedagógicas. Gatti (2013); Gatti et al. (2019) e Imbernón (2016) também contribuem para essa discussão ao afirmar que os licenciandos são ensinados de maneira padronizada, pouco flexível e frequentemente desconectada as demandas educacionais específicas daquela realidade educativa, o que repercute em lacunas na aprendizagem, pois, para formar os licenciandos para atuarem na educação básica, é fundamental levar em conta os contextos sociais e culturais que influenciarão diretamente o seu trabalho.
No intuito de tentar superar uma das principais lacunas na formação inicial, relacionada a falha em preparar os professores para os desafios reais da sala de aula e o reforço de práticas tradicionais e crenças prévias, estudos apontam para modelos de formação integral e currículos que articulem teoria e prática, de modo a proporcionar aos futuros professores oportunidades de reflexão crítica e investigação da realidade, em busca de uma melhor qualidade na formação de professores.
A formação integral dentro da perspectiva de formação de professores pode ser entendida como um processo que vai além da simples capacitação técnica (modelo de formação baseado na racionalidade técnica que dá ênfase ao domínio do conteúdo que muitas vezes está desconectado das realidades e demandas do cotidiano escolar). Essa abordagem prevalente nos cursos de formação inicial, ilustra uma desarticulação entre a formação acadêmica e a realidade de sala de aula, além de questionamentos que colaboram para as críticas que surgiram a respeito do modelo fragmentado de formação de professores. No entanto, já existem algumas iniciativas no planejamento de cursos de formação inicial que visam romper com esse modelo, apontando para uma formação Integral.
Existem muitos discursos que envolvem a formação integral, assumindo tanto uma perspectiva de articulação interdisciplinar, de modo a romper com abordagens pedagógicas e disciplinas fragmentadas, fortalecendo a contextualização e o diálogo com outras áreas do conhecimento, quanto uma formação que aborda a pessoa integralmente, ou seja, todas as suas dimensões: física, emocional, intelectual, social e transcendental. Sarasola Bonetti (2006), compartilha desta última perspectiva, enunciando quatro pilares
básicos (aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser) que se encontram ausentes na maioria das formações de professores, apontando que são deixados de lado os aspectos físicos e emocionais, desconsiderando o autoconhecimento. Para Souza, Silva e Silva (2015):
“A formação integrada passa a ser uma proposição didático-pedagógica que possibilitará ao ser humano superar a dualidade histórica na educação brasileira. Propõe a junção do pensar e do fazer, o conhecimento e fazer técnico com o saber técnico-científico e cultural. Essa formação proporciona uma educação omnilateral e a possibilidade de integração ao mundo político-social, produtivo-econômico e cultural da sociedade.”
Conscientes das diversas perspectivas de formação integral, no próximo tópico, buscaremos compreender a perspectiva de integração a que se propõe o Projeto Pedagógico do curso de Licenciatura Integrada em Educação em Ciências, Matemática e Linguagens (LIECML).
O PPC do curso e a visão de formação integral
Buscando romper com o modelo predominante na formação de professores, propõe-se a criação e implantação do curso de Licenciatura Integrada em Educação em Ciências, Matemática e Linguagens (LIECML) na Universidade Federal do Pará (UFPA), que visa formar professores para atuar nos anos iniciais do Ensino Fundamental com foco em Ciências, Matemática e Linguagens, integrando conteúdos e metodologias, adota uma estrutura baseada em eixos temáticos e problematizações para garantir uma formação interdisciplinar e articulada com a prática docente, em que “desloca o foco do trabalho educacional do ensinar para o aprender, isto é, do que vai ser ensinado para o que é preciso aprender no mundo contemporâneo e futuro” ( PPC, 2012).
A estrutura curricular integra tanto os conteúdos de Matemática e Ciências, em termos fundamentais, quanto à construção de saberes docentes, saberes procedimentais e atitudinais ao longo do percurso de formação, englobando conhecimentos pedagógicos, científicos e conhecimentos pedagógicos dos conteúdos por meio da interação constante teoria-prática, discência-docência, universidade-escola (Machado e Gonçalves, 2016). A terminologia Licenciatura Integrada foi assumida pelo grupo proponente, referindo-se à formação de professores para os anos iniciais de escolaridade, de forma a evitar fragmentações disciplinares (Machado e Gonçalves, 2016), contrapondo a terminologia da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) relativa à “Licenciatura Plena”. A noção de integralidade que orienta a estrutura curricular deste projeto pode ser compreendida em diferentes vertentes como a articulação entre teoria e prática e integração de conteúdos.
A partir do PPC do curso é possível analisar de forma crítica essas vertentes e trazer excertos que possibilitam inferir a que perspectiva de integração está associada ao curso de LICML. Notamos uma inclinação em proporcionar ao licenciando vivências que se assemelham à prática de sala de aula, caracterizando uma tentativa de articulação entre teoria e prática, além disso, essa articulação é destacada nos componentes de formação básica para a docência que “possibilitam a aquisição do conhecimento teórico e iniciam o tratamento da relação teoria e prática que fundamenta a profissão” (PPC, 2012) sendo esses componentes aspectos teórico-metodológicos considerados fundamentais das ações da docência.
Também é possível perceber uma motivação voltada para a integração entre os conteúdos, de uma forma multidisciplinar e interdisciplinar. Essa integração é evidenciada no documento ao contemplar que o desenvolvimento do curso se dá em termos integrativos, “evitando-se o cerceamento e a dissociação do conteúdo e de suas relações”, em outro trecho, essa integração dos conteúdos e disciplinas é evidenciada nos componentes de formação geral, que buscam atender o propósito de “assegurar uma abordagem multidisciplinar que propicie uma sólida formação geral ao futuro professor” (PPC, 2012), utilizando-se de abordagens “interdisciplinares de questões abrangentes e fundamentais de conhecimento científico e social” (PPC, 2012).
Além disso, há uma inclinação para a articulação entre os conhecimentos científicos e culturais, incluindo o contexto sociocultural do Estado do Pará e em especial a Região Amazônica. Essa inclinação é apontada em diferentes momentos expressos no documento, como por exemplo “ É desejável, nesse âmbito, por exemplo, que atividades, assuntos ou conteúdos ligados à arte e à cultura”, trazendo à discussão o enfoque multicultural, a realidade social, econômica e cultural, que são envolvidos no planejamento de forma a “propiciar vivências em algumas modalidades e experiências, entre outras, e opcionalmente, na educação de pessoas deficientes, na educação do campo, na educação indígena…” (PPC, 2012).
Esses trechos apontam para a noção de integração que abrange esses três aspectos: articulação entre a teoria e a prática, articulação entre diferentes disciplinas e conteúdos; e articulação entre conhecimentos científicos e culturais. Teoricamente, a proposta curricular garante o preparo necessário para que o futuro professor enfrente os desafios da sociedade contemporânea, do mercado de trabalho e das condições em sala de aula, assegura uma abordagem multidisciplinar que propicia ao licenciando uma formação sólida, que debate questões abrangentes de cunho científico e social e em particular que inclui o contexto sociocultural do estado do Pará.
Observamos no PPC da LICML, que acontece uma busca por interligar as disciplinas por meio de temas interdisciplinares, os quais relacionam os conhecimentos científicos com a vivência dos estudantes, percebemos uma tentativa muito importante de romper com abordagens fragmentadas e rigidez do currículo tradicional e que as discussões em torno dessa perspectiva estão mais relacionadas com a abordagem de temas, resolução de problemas, em que a compartimentalização dos conteúdos vem sendo substituída pela concepção de integração de conteúdos e interdisciplinaridade. Porém, é possível perceber que não se atribui a devida importância à complexidade do licenciando como a inclusão de sua história de vida, perspectivas e motivações. Essa ênfase na integração curricular tem sido predominantemente direcionada para o "o que" deve ser ensinado e desenvolvido nos alunos e acaba negligenciando uma dimensão crucial: o "como" os professores aprendem e se desenvolvem subjetivamente durante sua preparação para o exercício profissional, pouco se fala da integração do sujeito que aprende (González Rey, 2008), o que inclui relacionar as temáticas e o currículo com a vida do licenciando e suas experiências anteriores.
Além disso, a relação teoria-prática tão enfatizada em documentos e normas, com a concepção curricular integrada proposta, não se concretiza no cotidiano das diferentes licenciaturas (Gatti, Barretto e André, 2011). Corroborando para essa concepção, Flores (2010) aponta que muitas práticas existentes contradizem os princípios e os pressupostos da integração teoria/ prática e da articulação entre os contextos de formação, na formação inicial de professores e na prática, existem outras questões que podem impossibilitar a
execução plena da proposta. O estágio supervisionado, por exemplo, é apontado como um espaço essencial para conectar teoria e prática, mas sua eficácia depende da qualidade da orientação e do clima de apoio nas escolas, outra questão, envolve o posicionamento do formador de professores que deve estar alinhado com as demandas que o curso propõe, e exige o rompimento com o ciclo de reprodução conteudista que teve em sua formação ( Júnior, Faccio e Pereira, 2022), e no confinamento e dependência da sua disciplina específica (Gatti, Barretto e André, 2011).
Infere-se também que embora no PPC do curso seja visível a preocupação em relacionar as disciplinas por meio de temas que possam ser mais contextualizados e interdisciplinares abordando a vivência dos estudantes com os conhecimentos científicos, percebe-se que a relevância quanto à complexidade do estudante como sua história de vida, perspectivas e motivações ficam em segundo plano, ou seja, não acontece a perspectiva de formação integral com a valorização da sua dimensão subjetiva, mas sim uma integralização a nível de conteúdo e abordagens.
A Formação integral na perspectiva da Teoria da Subjetividade
Do ponto de vista da Teoria da Subjetividade (TS) quanto à formação integral, González Rey (2008) reforça que é necessário olhar para o sujeito que aprende, para sua complexidade e totalidade e valorizar a história de vida, as relações e o contexto da sala de aula. Acreditamos nessa perspectiva teórica e nos fundamentamos nela para trazer algumas contribuições da TS na Licenciatura Integrada em Ciências, Matemática e Linguagens.
Nota-se um problema na formação inicial de professores relacionado a uma longa trajetória enraizada na ideia de que os cursos são uma continuação do bacharelado, em que professor é um técnico que executa o conhecimento transmitido por outros em vez de gerá-lo por meio da prática de ensinar e aprender (Gatti et al 2019). Nos estudos de (Diniz-Pereira, 2007; Ayres, 2012; Gatti 2014) são apontados a ênfase dada à aprendizagem dos conhecimentos técnicos separados dos pedagógicos e sem viés de valorização subjetiva. Essa abordagem tende a negligenciar a dimensão subjetiva do processo da aprendizagem, focando mais na aplicação mecânica de teorias e conteúdos pré-estabelecidos.
A noção da aplicação de conhecimentos, princípios e estratégias diverge com a ideia de criação, este é um conceito que deveria guiar os processos formativos para que sejam valorizadores às singularidades individuais e sociais. Expandir essa visão implica não apenas modificar o currículo dos cursos de formação de professores, mas também transformar as práticas pedagógicas e os ambientes de aprendizagem, os futuros professores precisam ser incentivados a desenvolver uma compreensão mais profunda de como suas próprias experiências, valores e emoções influenciam sua prática docente, isso não só favorece a serem mais reflexivos e críticos em relação ao seu papel como educadores, mas também os prepara melhor para atender às necessidades individuais e coletivas de seus alunos. Além disso, considerar a aprendizagem como uma produção subjetiva abre espaço para a valorização da criatividade, da autonomia intelectual e do pensamento crítico entre os professores em formação.
Grande parte dos processos de formação enfatizam apenas os conhecimentos técnicos, muitas vezes esquecendo o fato de que esses conhecimentos e saberes precisam ser integrados para tornar-se parte da motivação da ação profissional e personalizados
para se tornarem parte da produção subjetiva e comporem a futura prática pedagógica destes profissionais. A motivação da ação profissional se faz essencial para sua efetivação, portanto, se faz necessário valorizar os aspectos subjetivos na formação inicial de professores para fomentar abordagens mais completas no âmbito educativo.
A Teoria da Subjetividade (TS) de González Rey por ser pautada no estudo das vivências subjetivas dos indivíduos e como eles se expressam em meio a cultura, tem um papel fundamental para desenvolvimento da formação do aprendiz-professor, já que essa abordagem contribui para uma visão de formação que não se limita ao ensino de conteúdos técnicos ou pedagógicos, mas também valoriza a produção subjetiva do aprendiz-professor.
Nesse contexto, a TS surge como um aporte teórico em que se propõe uma contribuição importante na preparação para o exercício da profissão ao afirmar que a formação docente deve ser um processo que envolva a construção de sentidos pessoais, afetivos e emocionais, além do desenvolvimento técnico e cognitivo. Logo, a proposta de González Rey se baseia na compreensão de que a subjetividade não é um atributo isolado do indivíduo e sim está intimamente relacionada ao contexto social e cultural em que ele está inserido, ou seja, ao desenvolver essa perspectiva à formação inicial de professores podemos compreender que os licenciandos não são apenas receptores passivos de conteúdos pedagógicos e científicos, mas que eles podem se tornar agentes e sujeitos de sua própria formação, assim, valendo-se de uma vivência contínua de reflexão sobre experiências de vida, processos emocionais aliados aos conhecimentos científicos os quais estão em constante interação com o ambiente social e cultural em que atuam.
Para isso, González Rey (2008) vem contribuir com a discussão sobre a perspectiva de formação integral assegurando que existem aspectos subjetivos da aprendizagem que são importantes para termos sujeitos que aprendem sendo eles: o carácter singular do processo de aprender o qual se opõe ao pensamento fixo de aprendizagem repassada de forma mecânica com aspecto passivo e reprodutivo, tal caráter nos faz pensar em práticas pedagógicas que valorizem a complexidade dos indivíduos e a compreensão da aprendizagem como uma prática dialógica que fomente a discussão reflexão, criatividade do aluno, valorize suas emoções e história de vida, nesse caso professor exerce o papel de facilitador da aprendizagem.“O aluno torna-se sujeito de sua aprendizagem quando é capaz de desenvolver um roteiro diferenciado em relação ao que aprende e a se posicionar crítica e reflexivamente em relação à aprendizagem” (González Rey, 2008, p. 40).
Desse modo, a visão de formação integral para perspectiva da teoria da subjetividade consiste em valorizar a dimensão subjetiva da aprendizagem dos futuros educadores considerando suas emoções, experiências de vida e interações sociais, propondo que o desenvolvimento profissional dos licenciandos, leve em consideração a construção pessoal, identidade e não se restrinja apenas ao domínio de conhecimentos técnicos ou pedagógicos tornando-se sujeitos que aprendem. Mas para isso, também é necessário um novo posicionamento do formador de professores para que essas demandas sejam atendidas e o modelo da racionalidade técnica seja superado.
Diante dessa perspectiva de formação Integral, é possível olhar para o Projeto Político Pedagógico do curso de Licenciatura Integrada e enxergar meios de proporcionar essa abordagem a partir dos conteúdos propostos, pensando no sujeito da aprendizagem. Há alguns trechos do PPC, que dão abertura para pensar por essa visão
de formação integral, como por exemplo “Valorizar o conjunto de conhecimentos que o aluno possui das suas vivências e experiências como sujeito cultural”, também por meio da dinâmica curricular metodológica que instiga ações e reações do estudante da docência “como sujeito construtor do seu conhecimento e co-responsável pela sua formação profissional, bem como de seus pares que manifestem interesses comuns ou similares” ou até mesmo na liberdade de promover a avaliação e tratá-la como uma oportunidade de diálogo entre os alunos, como é defendido no trecho “a avaliação pode estabelecer um processo dialógico, cooperativo, interativo e a formação de sujeitos críticos, proativos e participativos” (PPC, 2012). Essas proposições estão fundamentadas em princípios didático-pedagógicos que organizam o trabalho docente e o relacionamento interpessoal e podem dialogar com a visão de formação integral pretendida a partir da Teoria da Subjetividade.
Ao integrar esses aspectos sociorrelacionais entre conhecimento científico, história de vida e saberes cotidianos na formação inicial de professores, os futuros educadores terão uma aprendizagem por meio da produção de sentidos e estarão mais bem preparados para criar ambientes de aprendizado inclusivos e culturalmente sensíveis, onde todos os alunos se sintam valorizados e capazes de alcançar seu pleno potencial. Além disso, essa abordagem contribui para fortalecer os laços entre a escola e a comunidade, promovendo uma educação mais relevante e contextualizada (González Rey e Mitjáns Martínez, 2017).
Com o olhar voltado aos aspectos subjetivos da aprendizagem, as autoras Rossato e Peres (2019) asseveram que os sistemas e programas de formação de professores devem visar o desenvolvimento dos recursos subjetivos (dimensão funcional de uma configuração subjetiva que se manifesta na expansão das possibilidades de ação, reflexão e posicionamento em diversas esferas da vida) auxiliando assim os licenciandos a emergirem como agentes e sujeitos ativos em sua prática docente envolvendo-se em uma profunda conexão sua história, suas emoções e com suas interações com o outro preparando o futuro professor para ensinar, mas também para transformar, para ser um agente de mudança na vida dos alunos e na sociedade. Dessa forma acreditamos que a formação de professores deve ser mais do que um simples treinamento técnico e pedagógico e sim uma construção contínua e reflexiva.
Um dos desafios dessa proposta é pensar como o formador pode viabilizar essa perspectiva de formação integral, já que a maioria dos professores que formam licenciandos possuem uma trajetória inclinada para o modelo da racionalidade técnica. No entanto, os temas presentes na estrutura curricular do curso LICML, têm uma abrangência bem maior, que permitem conhecer a turma, relacionar as temáticas com vivências anteriores e possibilitam selecionar conhecimentos relevantes que podem estar associados com experiências e motivações do aluno, olhando para a condição de vida dos licenciandos e relacionando diversos saberes.
Portanto, as concepções do professor formador são fundamentais para que o PPC seja de fato colocado em prática e não seja apenas uma idealização da articulação entre teoria e prática, pois tem a responsabilidade de criar espaços de análise e discussão sobre a prática docente, além de modelar pedagogias que incentivem a reflexão e a investigação (Flores, 2010), devendo incentivar a construção do pensamento crítico, estabelecendo relações com o cotidiano, buscando articular conteúdos e temas, que devem estar presentes no seu planejamento, além de valorizar a dimensão subjetiva da aprendizagem dos licenciandos.
Conclusões
Embora a formação integrada seja um avanço em relação às abordagens fragmentadas e técnicas, ela ainda enfrenta desafios significativos quando o foco principal está no conteúdo, em detrimento da consideração do professor como agente e sujeito da aprendizagem. Muitas vezes, os programas de formação integrada concentram-se na transmissão de uma vasta quantidade de informações e conhecimentos específicos, sem proporcionar espaço suficiente para a reflexão crítica e o desenvolvimento pessoal dos aprendizes.
A formação integrada defendida na Licenciatura Integrada visa preparar professores tecnicamente competentes e reflexivos, capazes de integrar teoria e prática, já a formação integrada para a teoria da Subjetividade de González Rey, assume uma nova perspectiva, pois não olha apenas para os conteúdos, por outro lado, também olha para a pessoa e suas relações que se estabelecem em outros espaços, além disso, busca contribuir para a emergência de professores como sujeitos ativos e reflexivos, capazes de criar e se posicionar nos contextos sociais.
Apesar de a formação integrada defendida no PPC seja importante, é necessário destacar que a formação de professores deve ir além da mera transmissão de conteúdo, incluindo também o desenvolvimento de competências pedagógicas, a capacidade de reflexão crítica e a valorização das experiências subjetivas dos professores e alunos, ou seja, há necessidade de refletir as demandas do ensino, dedicando maior atenção aos aspectos subjetivos dos professores na preparação para o exercício da docência, sobretudo no processo de aprendizagem.
A subjetividade é um conceito teórico essencial para a compreensão do processo de preparação profissional, pois permite um outro olhar sobre esses aspectos e seu lugar em uma cosmovisão de preparação profissional mais integrada e complexa (Mitjáns Martínez e González Rey, 2019) Logo, a formação integral defendida por González Rey (2008) mostra como é necessário olhar para o sujeito que aprende, para sua complexidade, além de valorizar a história de vida, as relações e o contexto da sala de aula. Vale ressaltar que a perspectiva de integralidade para TS e o termo sujeito que aprende foram resgatados de obras mais antigas de González Rey, utilizamos esses conceitos por acreditarmos em seu potencial e relevância para a discussão sobre a perspectiva de integração presente no PPC do curso analisado.
Diante dessa perspectiva, é imperativo que os programas de formação docente forneçam abordagens alternativas para promover a integração dos conhecimentos científicos às questões emocionais, incorporando assim uma compreensão mais profunda e ampla do contexto sociocultural dos estudantes e do ambiente em que as instituições de ensino estão inseridas. Isso significa não apenas considerar as diferentes origens étnicas, culturais e socioeconômicas dos estudantes, mas também entender as dinâmicas sociais, culturais e ambientais as quais influenciam sua aprendizagem e desenvolvimento.
Por fim, essas reflexões são bastante valiosas sobre a formação de professores e os desafios que precisam ser enfrentados para melhorar a qualidade da educação no Brasil, além disso, o formador de professores tem um papel fundamental no direcionamento da abordagem no curso de formação inicial, podendo tanto permanecer na racionalidade técnica, sem articulação entre a teoria e a prática, quanto percorrer outros caminhos que incentivem a reflexão dos licenciandos, valorizem os aspectos
subjetivos sem deixar de levar em consideração a aprendizagem docente e os conhecimentos científicos de forma interdisciplinar.
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VERIFICAÇÃO DE SIMILARIDADE
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PUBLISHER
Programa de Pós-graduação em Educação e Ensino de Ciências na Amazônia – PPGEECA. Publicação no Portal de Periódicos da Universidade do Estado do Pará. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da referida universidade.
EDITOR
Prof. Dr. Ronilson Freitas de Souza
HISTÓRICO
Submetido: 20 de novembro de 2025. Aceito: 25 de março de 2026 Publicado: 09 de abril de 2026.